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Artigo Tradicional
O "Homem Astuto" e o Diabo - P. D. Ouspensky
(do livro Extraits from Meetings, 02 de março de 1939)
Pergunta: Poderia me dizer qual a diferença exata entre dois homens, cada qual em seu leito de morte, sendo que um deles aprendeu a arte da lembrança de si e o outro nunca ouviu falar disso?
Sr. Ouspensky: Não, seria necessário um escritor com muita imaginação para narrar essa situação. Há tantas variantes possíveis! Os homens podem ser muito diferentes entre si e pode haver diferentes circunstâncias. Não dá para descrever isso dessa forma.
Pergunta: A lembrança de si é o desenvolvimento da capacidade de se lembrar quando se quer?
Sr. Ouspensky: Não de se lembrar propriamente, mas de ficar consciente de si. Lembrança é apenas uma palavra usada porque não há nenhuma outra. Mas em todas as línguas, existe esta expressão corrente: você se esqueceu de si mesmo, não se lembrou de si mesmo, eu me lembrei de mim mesmo, ele se lembrou de si próprio. Este é apenas um sentido comum, mas presumo que esteja ligado a algumas de suas questões sobre o estado de lembrança de si. A respeito de sua pergunta sobre a lembrança de si e o homem na hora da morte, seria melhor relatar-lhe uma história. É uma velha história, contada nos grupos de Moscou em 1916, sobre a origem do sistema e do trabalho, e sobre o significado da lembrança de si. A narrativa acontece em um país desconhecido, em data ignorada. Conta-se que um homem estava passando por um café quando encontrou o diabo em estado de necessidade, de extrema penúria. Estando ambos famintos e sedentos, o homem astuto entrou no café com o diabo, pediu que lhe servissem um cafezinho e perguntou-lhe a causa de seu estado de miséria. O diabo, então, respondeu-lhe que os negócios estavam parados. Disse que costumava comprar almas e queimá-las até virarem carvão; quando as pessoas morriam, tinham almas muito gordas, que podia levar para o inferno e deixar todos os diabos muito satisfeitos. Naquele momento, porém, as fogueiras do inferno estavam extintas, porque, quando as pessoas morriam, não tinham alma nenhuma. Então, o homem astuto disse que talvez eles pudessem fazer negócio e acrescentou: “Ensine-me a fazer almas e lhe farei um sinal para lhe mostrar quais pessoas têm almas feitas por mim”, e pediu mais um café. O diabo disse que bastava ensinar-lhes a se lembrarem de si, a não se identificarem e tudo o mais, e, depois de certo tempo, teriam almas formadas. O homem astuto começou então a trabalhar, organizando grupos e ensinando pessoas a se lembrarem de si. Algumas delas começaram a se trabalhar seriamente, tentando não se identificar e outras coisas desse tipo. Então morriam e, por muito tempo, as coisas se passaram da seguinte forma: quando chegavam às portas do paraíso, São Pedro estava lá, com as chaves de um lado e o diabo do outro, e ia abrir o portão junto com o diabo, dizendo: “Posso fazer-lhe só uma perguntinha? Você se lembra de si?” E eles respondiam: “Claro, com certeza”. O diabo então dizia: “Desculpe-me, mas esta alma é minha”. As coisas ocorreram dessa forma por muito tempo até que, por alguma razão, conseguiram comunicar à Terra o que estava acontecendo no portão do paraíso. As pessoas, então, foram ter com o homem astuto, dizendo: “Para quê você nos ensina a nos lembrarmos de nós mesmos se, quando contamos que nos lembramos, o diabo nos leva?” E o homem astuto disse: “Ensinei-os a falar que se lembravam de si mesmos? Ensinei-os a não falar!” Então as pessoas disseram: “Mas trata-se de São Pedro e do diabo!” E o homem astuto perguntou: “Vocês viram esses dois, São Pedro e o diabo, nos grupos? Muito bem, então não falem! Algumas pessoas não falaram e conseguiram entrar no paraíso. Não fiz apenas um acordo com o diabo, elaborei também um plano para enganá-lo, mas se as pessoas falam...”
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