Grupo Gurdjieff São Paulo
Artigo Tradicional

Morte e Imortalidade

Eknath Easwaran
(extraído do livro Dialogue with Death – a Journey through Consciousness)

No vasto palco de maya, tendo a reencarnação como pano de fundo, o ilusório jiva que se identifica com o corpo é uma longa linha de vida da consciência atravessando o tempo. Nos intervalos, há nela algumas interrupções, quando a morte ocorre e separa a consciência do corpo. Mas a pessoa que aprendeu, por vontade própria, a separar a consciência do corpo e da mente, não é afetada por essa cirurgia cósmica. Sua consciência deixa de ser individual e torna-se universal. Para ela, corpo e mente são apenas uma espécie de vestimenta. Sua consciência não é mais rompida pela morte, como acontece com a nossa quando tiramos a roupa à noite.

Na meditação, se nossos sentidos e paixões ficarem constantemente sob controle, o ego morrerá um pouco a cada dia. Sempre que nos esquecemos do ego, mesmo por um instante, o “eu” ilusório e separado desaparece. São os momentos de imortalidade, aqui mesmo na Terra. Prolongue-os, acalme a mente, e o falso “eu” deixará de existir. Nesta vida mesmo, o jiva morrerá; como poderá morrer novamente? Morrendo para nós mesmos, dizem todos os místicos, renascemos para a vida eterna.

Poderíamos perguntar: “Para onde foi o jiva? Onde está o homem que cometeu todos aqueles erros, a criança que brincou com os brinquedos com o quais brinquei e a mulher que sofreu e teve prazer?” Yama responderia simplesmente: “Existe alguma coisa, para que possa ir a algum lugar?” Você esteve sonhando que era um mendigo; agora despertou e descobriu que é um príncipe. Aonde foi o mendigo? “A morte”, diz o Buda da Compaixão, “é o fim temporário de um fenômeno temporário” – nada mais, nada menos. Shakespeare capta o mesmo espírito na mara-vilhosa fala de Próspero, o grande mágico de “A Tempestade”:

Anime-se, senhor.
Nossos divertimentos já acabaram. Nossos atores,
Como já o prevenira, eram apenas espíritos, e
Dissolveram-se no ar, no meio do ar rarefeito.
E, semelhante ao edifício sem base dessa visão,
As altas torres cujos cimos tocam as nuvens, os suntuosos palácios,
Os templos solenes, até mesmo o imenso globo -
Sim, e tudo o que ele herdou – dissolver-se-á
E assim como esse cortejo sem substância desapareceu,
Não deixará atrás de si o menor sinal. Somos feitos do mesmo material
De que são feitos os sonhos, e a nossa curta vida
Termina com um sono.


Quando acordamos na Unidade, o egocentrismo morre para sempre, e a mortalha é estendida sobre ele. Ninguém lamenta esse momento. É tempo de regozijo, pois nesse dia morre a agitação, todo tumulto, todo pesar. “A felicidade desse momento não tem fim”, diz Shankara. É esse o perigo; é quase irresistível. A mais temida tentação no caminho espiritual vem logo após o momento em que o objetivo é alcançado, quando você olha para trás, para o decurso da vida e, depois de toda a luta, não quer nada mais a não ser se expor ao arrebatamento do Eu. Um certo número de místicos sucumbiu a isso, tanto no Ocidente quanto no Oriente. Eles perderam todo o interesse pelo mundo; que importância têm as coisas? Pertenço à escola oposta. Tudo importa: saúde, educação, relacionamentos, até mesmo as diversões. De um lado, o mundo não tem sentido; de outro, é pleno de significado.

Muitas vezes as pessoas perguntam: “Se o ego se foi, como se pode sentir absolutamente tudo?” A resposta é que, para muitos, fica uma espécie de ego. Sri Ramakrishna chama-o de “ego maduro”: não verde, mas doce, só esperando para cair da árvore. Permanece somente para capacitá-lo a continuar doando à vida. Como um pedaço de corda queimada, parece uma coisa real; mas, assim que o toca, você descobre que a força da corda só existe na aparência. Da mesma forma, o ego maduro é incapaz de sentir raiva ou ódio, ou qualquer emoção negativa. A única motivação do ser humano iluminado, homem ou mulher, é o amor.

É possível eliminar o ego completamente; isso tem acontecido. Mas, sem um “ego maduro”, é difícil relacionar-se com as outras pessoas, compreender-lhes os problemas e ser amável e prestativo, sentir, rir e sorrir, chorar, oferecer ajuda e conforto, fazer sugestões. Para mim, esse é o mais alto de todos os ideais possíveis. É uma grande Arte. Agimos ainda, mas não nos esquecemos mais da unidade da vida atrás de sua aparente diversidade. Vivemos com um dos pés no centro da vida, e o outro em sua periferia – como diz Eckhart, “um olho no tempo, o outro na eternidade”. Lamentamos profundamente quando alguém passa deste estágio; ao mesmo tempo, nunca devemos nos esquecer de que o Eu daquela pessoa não pode morrer. Mesmo para aqueles ainda presos à magia de maya, a morte é apenas uma porta aberta, uma nova oportunidade para buscar o supremo objetivo da vida e descobrir o Eu real.

Quando o egocentrismo desaparece, o amor produz em nosso coração um chafariz perene. Tudo o que se quer na vida é doar. É essa fonte constante de alegria que faz deste planeta, com todos os seus problemas, um paraíso, “o solo verdejante de Jerusalém”. Não nos tornamos cegos para os problemas do mundo. Você compartilha intensamente os sofrimentos das pessoas ao seu redor, ainda que o seu tenha passado. Por causa disso, há pessoas que preferem fechar os ouvidos a escutar os gritos de angústia dos demais. A mensagem das grandes Escrituras do mundo é exatamente oposta. O Senhor diz: “Torne seus olhos mais sensíveis, seus ouvidos mais apurados; Eu lhe fortalecerei os braços” – assim, não precisamos nos retirar do mundo em nenhuma circunstância, nem sentir que o sofrimento é maior do que podemos suportar. Essa solidariedade verdadeira abre uma imensa reserva interna. Então, doamos tudo o que podemos para ajudar a aliviar a dor dos demais, e nesse doar há mais alegria do que aquela que o mundo conhece.