Grupo Gurdjieff São Paulo
Artigo Tradicional

TUDO ACONTECE PARA O MELHOR


Swami Prasnanpad

Você deve lembrar-se de que tudo o que acontece, acontece para o melhor. Há uma distribuição divina das coisas. Sua vida estaria empobrecida sem todas as coisas que lhe ocorreram. Por isso, tudo deve ser aceito, o bom e o mau. De fato, você não tem escolha: se desejar o bom, terá o mau também. Todas as situações têm dois aspectos. Se quiser o lado ‘cara’ de uma moeda, deve ficar também com a face ‘coroa’. É inútil esperar apenas o prazer. O prazer e a dor estão sempre juntos. É preciso ficar com os dois, ou com nenhum deles. Quando ocorre algo, antes de tudo, receba-o. Esta é a verdade. Aconteceu. Você pode recusá-lo e dizer que não se passou? Não. Depois de ter chorado e se lamentado, vai aceitá-lo de qualquer modo. Por que, então, não o acolher desde o princípio? Diga sim a tudo. Quando você aceita um acontecimento de boa vontade, não há sofrimento.

O medo deve ser banido de sua vida.

O temor de que algo sobrevenha é pior do que o fato em si. Os medrosos, muitas vezes, morrem antes da hora. O medo deve ser suprimido de sua vida, porque é irracional e bloqueia a ação.

“Olhamos para a frente e para trás e nos enfraquecemos por causa daquilo que não existe.” (Shelley)

O hábito pernicioso de pensar no futuro e no passado deve ser rompido. Não é preciso tolerar que o passado o domine, nem que o reflexo do futuro influencie o presente, a realidade. Você só pode viver no presente quando o passado e o futuro forem eliminados. Apenas o presente é real, passado e futuro são meras ilusões. Viver no presente significa aceitar tudo o que vem. Em vez de rejeitar a realidade, de qualificá-la como boa ou má, agradável ou desagradável, experimente tudo o que lhe chega, porque tudo isso é vida. Não fuja da vida.

Quando dizemos que algo é bom ou mau para a pureza interior, não estamos vendo as coisas como são. Não há bem nem mal no objeto em si. Quando se toma muita quantidade de alguma bebida alcoólica, diz-se que o álcool faz mal, mas o caráter de ‘mau’ reside em nós mesmos e não no álcool.

Você está em uma gaiola de vidro que chama de fortaleza. Como pode haver limite para o estado de Brahmachari*? Tudo o que jogar no fogo será consumido por ele. Da mesma forma, se houver um estado de Brahmachari dentro de você, tudo que entrar em contato com ele será transformado. Devemos reinar sobre tudo o que nos diz respeito. O verdadeiro monge (sannyasi) é mestre de si mesmo em qualquer circunstância. Vestirá a seda mais cara com a mesma tranqüilidade com que usa roupas rasgadas; servir-se-á de um alimento principesco ou de uma sopa caseira com a mesma satisfação. Mas ele é moderado, come de acordo com suas necessidades. Não dormirá demais se estiver deitado em um colchão macio. Não é escravo de nada e pode, de uma forma ou de outra, adaptar-se fácil e alegremente a qualquer situação.

Se um pedaço de gengibre pode perturbar o seu estado de Brahmachari, então, de que vale esse estado?

*O estado de Brahmachari é o estado de quem vive na não-identificação. (N.T.)


A REPETIÇÃO DO NOME DIVINO

Se colocar madeira molhada sobre um braseiro, ela perderá, pouco a pouco, a sua umidade. Da mesma forma, o espírito de frivolidade acaba ressecando-se no homem que repete o santo Nome de Deus e que encontra Nele seu refúgio. Quem diz a si mesmo que pensará em Deus apenas quando o seu apego às coisas terrestres tiver terminado jamais será capaz de fazê-lo, pois esse momento nunca chegará.

Conscientemente ou não, em qualquer estado em que nos encontremos, se invocarmos o Nome de Deus, nos beneficiaremos do mérito dessa invocação. O homem que vai voluntariamente banhar-se em um rio, o que é obrigado a fazê-lo e o que é borrifado com água durante o sono - os três adquirem o benefício do banho.

A um instrutor religioso, que entendia ser o Nome de Deus suficiente para conduzir à Realização divina, o Mestre respondeu: “Sim, sem dúvida, repetir o santo Nome é muito eficaz, mas seria suficiente fazê-lo sem Amor? A alma deve ter sede de Deus. De que me adianta repetir o Seu Nome se permito ao meu espírito fixar-se na ‘mulher e no ouro’?”

O homem torna-se imortal quando cai em uma tina de néctar, não importando o modo como ele cai. O que nela tomba após várias práticas religiosas torna-se imortal da mesma forma que o que foi para ela empurrado. Consciente ou inconscientemente, ou até mesmo por engano, se pronunciar o Nome do Senhor, obterá o mérito dessas palavras.

Quando cremos no poder do santo Nome de Deus e nos sentimos dispostos a repeti-lo constantemente, não há necessidade de discernimento, nem de exercícios piedosos de nenhum tipo. Todas as dúvidas são aplacadas, o espírito torna-se puro e o próprio Deus é realizado pelo poder de Seu santo Nome.

O GUIA QUE ORGANIZA A VIDA

(A Mãe)


O anímico tem um poder?

Um poder? É geralmente o anímico que dirige o ser. Nada se sabe sobre isso, porque não se é consciente dele, mas é ele, em geral, que dirige o ser. Se ficarmos muito atentos, perceberemos isso. Mas a maioria das pessoas não o nota. Por exemplo, quando decidem, em sua ignorância exterior, fazer certa coisa e não o conseguem, mas vêem que todas as circunstâncias se organizam para que façam outra coisa, elas começam a gritar, a esbravejar, a se encolerizar contra o destino, a dizer, dependendo de sua crença, que a Natureza é má, que seu destino é funesto, Deus é injusto, ou não importa o quê. No entanto, na maior parte das vezes, era justamente essa a circunstância mais favorável para seu desenvolvimento interior.

Naturalmente, se você pedir ao anímico para ajudá-lo a tornar a sua vida agradável, a ganhar dinheiro, a ter filhos que serão a honra da família, etc., bem, ele não o ajudará! Mas produzirá todas as circunstâncias necessárias para que algo desperte em você e a necessidade de união com o Divino nasça em sua consciência. Pode ser que, algumas vezes, você tenha feito belos projetos que, se tivessem sido bem-sucedidos, o prenderiam cada vez mais dentro da crosta de sua ignorância, de sua pequena ambição imbecil e de sua atividade sem objetivo. Enquanto que, se receber um bom choque e o posto que cobiçar lhe for recusado, se o projeto que fizer for destruído e você ficar totalmente contrariado por causa disso, então, pode ser que essa contrariedade lhe abra uma porta para algo mais verdadeiro e profundo. E quando você tiver despertado um pouco e olhar para trás, se for minimamente sincero, dirá: “Ah! Não era eu quem tinha razão – era a Natureza, ou a Graça Divina, ou meu ser anímico, que fez tudo isso”. Foi o ser anímico que organizou tudo.

Se seu ser anímico estiver suficientemente acordado para velar por você e preparar seu caminho, ele poderá atrair situações que o ajudarão. Poderá, por exemplo, atrair encontros, livros, circunstâncias e todo tipo de pequenas coincidências, que virão a você como se tivessem sido trazidas por uma vontade benevolente. Essas coisas lhe darão uma indicação, uma ajuda, um apoio para tomar decisões que o orientarão na boa direção. E uma vez decidido que encontrará a verdade de seu ser e que avançará seriamente no caminho, então tudo parecerá ligar-se no intuito de ajudá-lo a avançar.

O Diário da Mãe
(Mirra Alfassa)

Sem data, 1957

Os Sutras da Mãe

1) Não ambicione nada, sobretudo nunca deseje nada, mas seja a cada instante o máximo do que pode ser.

2) Quanto ao seu lugar na manifestação universal, somente o Supremo o designará.

3) Foi o Senhor Supremo quem decretou de maneira incontestável seu lugar no concerto universal, mas, qualquer que ele seja, você tem o mesmo direito que todos, de transpor os picos supremos até a realização supramental.

4) O que você é na Verdade de seu Ser foi decretado de maneira incontestável, e nada nem ninguém pode impedi-lo de Ser; mas o caminho que seguirá para alcançá-lo foi deixado à sua livre escolha.

5) No caminho da evolução ascendente, cada um está livre para escolher a direção que tomará: a subida rápida e íngreme em direção aos picos da Verdade, em direção à realização suprema, ou, voltando as costas aos cimos, a descida fácil para os meandros intermináveis das encarnações sem fim.

6) No decorrer do tempo e mesmo desta vida, você pode fazer sua escolha de uma vez por todas, irrevogavelmente, e assim só terá de confirmá-la a cada nova oportunidade; ou então, se não tomou desde o princípio a decisão definitiva, será preciso a cada instante escolher novamente entre a mentira e a verdade.

7) Mesmo que não tenha tomado desde o princípio a decisão irrevogável, se você tem a felicidade de viver um desses momentos singulares da história universal em que a Graça está presente, encarnada sobre a terra, Ela tornará a lhe dar, em certas ocasiões excepcionais, a possibilidade de refazer a escolha definitiva que o conduzirá diretamente ao alvo.

Outros mundos e outros corpos


(Trecho da obra de Satprem (1) intitulada O materialismo divino)

Passamos de vida em vida, de experiência em experiência – por diferentes modos de tocar a Matéria – até que nosso corpo de experiência tenha crescido nas dimensões do Universo.

Pois é esse, em princípio, todo o sentido da evolução: desenvolver em nós mesmos o corpo da Shakti (2).

Acreditamos fazer guerras, revoluções e cruzadas; criar filosofias, o socialismo, o capitalismo e constituir impérios do Helesponto a Bactriane; acreditamos construir máquinas, fazer literatura, fazer o bem e o mal, criar netos, porém, o tempo todo, é a Shakti que se desenvolve em nós, através do bem ou do mal, do socialismo ou do despotismo e, até mesmo, através de nossas máquinas ou de nossas tolices.
O tempo todo é o império da Shakti que determinamos, a mesma Shakti sob diversos nomes e rostos, sob epidermes negras ou brancas, sob nossos pecados ou virtudes, tanto faz, em nossas derrotas ou vitórias.
Uma mesma pequena parcela do grande Meio que cultivamos, acumulamos, colocamos em nossos celeiros pensantes ou sensíveis, como as abelhas de um grande Favo, de grão em grão, dia após dia, por meio de dores e mais dores e de vidas incontáveis com uma roupagem ou outra, com uma filosofia ou sem nenhuma filosofia, por meio de religiões e de evasivas em todas as línguas;
individualizamos a grande Shakti, banhamo-nos nela como girinos na torrente, quer nos tornemos pterodátilos ou musaranhos, matemáticos ou indigentes – ou nos tornemos o quê?

Há seres que são apenas seu corpo e sua função, que acumulam apenas pequenas parcelas da Energia necessária para fazer funcionar seu mecanismo, e quando ele se desfaz, sobra apenas o que colocaram dentro dele: eles “saem” no nada porque são apenas o combustível universal, e todas as filosofias que puderam acumular dentro de si não fazem diferença alguma se elas não constituíram uma substância viva, se não se tornaram um meio de apanhar, na armadilha, algumas gotas da grande Shakti.
E quando eles dormem também, aonde vão?
Fora de seu corpo, está a noite tão negra quanto a de dentro porque só cultivaram materiais destinados à sua boa aparência e à sua função – vai-se na direção daquilo que se é, tanto em um caso como no outro, tanto no sono como na morte.
E, se não se é nada mais que uma geléia pensante, não se vai a lugar algum, a não ser à refundição universal. Para se ir a algum lugar, é necessário ter um meio de transporte.
Para “sair” de seu corpo, é preciso que haja alguém que sai – é evidente.
E, quem sai?

(1) Satprem foi aluno da Mãe e de Sri Aurobindo.

(2) Shakti é a substância-mãe do Universo, a anima mundi.