Héstia: o fogo sagrado que ilumina e aquece
A relação entre Héstia e Hermes
Maria Aparecida De Stefano

Héstia, Vesta para os romanos, foi a primeira filha nascida do casamento de Réia e Cronos. Irmã de Zeus e de Hera, ela é pouco conhecida entre os deuses do Olimpo, por não ter participado dos casos amorosos ou das guerras que

permearam toda a mitologia grega. Esteve sempre acima ou fora das intrigas e rivalidades dos seus parentes e sempre evitou ser tomada pelas paixões do momento.

Em três hinos de Homero, é descrita como “a virgem venerável”, uma das três que não se submeteu a Afrodite. Como Ártemis e Atenas, sempre resistiu às propostas amorosas que lhe fizeram os deuses, os Titãs e outros mais. Apolo e Poseidon, incentivados por Afrodite, tentaram tirar-lhe a virgindade. Em vez de sucumbir a seus desejos, ela fez um juramento sobre a cabeça de Zeus: o de permanecer eternamente virgem. No Hino a Afrodite, Homero relata que “Zeus, em vez de dar-lhe um presente de casamento, concedeu-lhe um belo privilégio: um lugar no centro da casa para receber as melhores oferendas”.

Não é conhecida por meio de representações, mas sim por rituais em que é simbolizada pelo fogo. Na Grécia antiga, para que uma casa se tornasse um lar, a presença de Héstia era obrigatória. Conta-se que, quando havia um casamento, a mãe da moça acendia uma tocha na lareira pertencente à casa da família e levava-a até a nova residência do casal, para com ela acender o primeiro fogo que consagraria o novo lar dos noivos. O mesmo se passava quando se fundava uma nova cidade: carregavam uma tocha que fora acesa na lareira comum do átrio central das antigas cidades gregas e levavam-na até a nova cidade para, com ela, acender o fogo. Vemos, então, que Héstia sempre apareceu sob a forma de “fogo sagrado”.

Enquanto as outras deusas andam pelo mundo, Héstia permanece imóvel no Olimpo. Ela permanece no centro, onde fica o altar de sacrifícios. Nesse sentido, representa o fogo interior que é conectado quando voltamos para o nosso centro, para o nosso lar. O “foco” de Héstia é o centro. É interessante notar que “focus”, em latim, significa fogo, lume, braseiro, chama, lar, altar, casa. Ela é considerada a deusa do lar, ou mais especificamente, do fogo que queima na lareira central e que aquece o lar. Os primeiros lares e templos que lhe foram dedicados eram redondos; o primeiro símbolo de Héstia era o círculo.

Nos lares gregos, muitas vezes, ela era ligada a Hermes (Mercúrio para os romanos), o mensageiro dos deuses. A mais remota representação desse deus era uma coluna de pedra denominada “herm”. Nas casas de família, a lareira central, simbolizando Héstia, ficava na parte central da casa, enquanto o pilar fálico de Hermes ficava na entrada. Na Índia e em outras partes do Oriente, pilar e círculo aparecem “acasalados”. Já na Grécia e entre os romanos, os dois símbolos estão relacionados, porém aparecem separadamente. Nos templos, essas divindades também estavam ligadas. Em Roma, por exemplo, o santuário de Mercúrio ficava do lado direito das escadas que levavam ao templo de Vesta. Embora Héstia e Hermes estivessem relacionados, cada qual tinha uma função distinta: Héstia era o santuário que unia a família ao redor dela, enquanto Hermes era o protetor do portal, guia, companheiro no mundo e mensageiro dos deuses.

Na mitologia grega, o emblema de Hermes é o caduceu. Esse seu atributo é formado por um bastão de ouro no qual se enrolam simetricamente duas serpentes que podem ser interpretadas como as duas correntes cósmicas, ascendente e descendente, que se equilibram em torno desse eixo.

Se trouxermos essas informações para dentro de nós mesmos, poderíamos concluir que Héstia representa nosso fogo interior em seu aspecto curativo, aquele que, quando acessado, expande-nos, trazendo-nos a sensação de podermos ir muito além de nosso limite corpóreo. É o fogo sagrado que permanece sempre virgem, que não se deixa seduzir por nenhum aspecto da vida. O fogo representado por Héstia cura-nos e redime-nos, porquanto está ligado ao nosso centro, ao nosso âmago, à parte mais central de nossa alma. Hermes, por sua vez, também representa a cura, porquanto o caduceu é o emblema atual da Medicina. Fica claro, por tudo que foi dito, que internamente Hermes representa nossa coluna vertebral, o nosso bastão interno. Como mensageiro dos deuses, ele nos põe em contato com os níveis mais altos do Universo. Nossa coluna liga-nos à energia cósmica, permitindo que ela penetre nosso corpo, entrando pelo topo de nossa cabeça até a nossa base para depois retornar em um constante fluir, harmonizandonos e religando-nos ao centro do mundo.