CONTOS

História da Mãe

Hans Christian Andersen

(Adaptada por Cida De Stefano)

 

A Mãe estava sentada à cabeceira do filho, muito triste e apreensiva, temerosa de que ele morresse. A criança, pálida, respirava fracamente.

Ouviu baterem à porta e viu entrar por ela um pobre velho envolto em um cobertor. Era pleno inverno e o velho tremia de frio. A Mãe ofereceu-lhe uma caneca de cerveja e convidou-o a se sentar ao seu lado na lareira, para se aquecer. A criança dormia e o velho ficou balançando o seu berço, fitando o menino doente que respirava com dificuldade.

–  Não crê que ficarei com ele? – perguntou-lhe. Não crê que Deus Nosso Senhor não o irá tirar de mim?

O velho, que era a própria Morte, meneou a cabeça de uma maneira estranha que tanto podia significar “sim” como “não”. A Mãe baixou os olhos chorando e, como não pregava o olho havia três dias, adormeceu. Depois de um breve instante acordou sobressaltada, tremendo de frio, e percebeu que o velho havia desaparecido com a criança. Saiu correndo de casa, gritando por seu filho. Lá fora, uma mulher de longas vestes negras estava sentada no meio da neve.

– A Morte esteve no seu quarto  – disse ela. Vi-a sair apressada, levando seu filho. Ela corre mais que o vento e nunca traz de volta o que leva.

– Mostre-me apenas o caminho que ela tomou e saberei encontrá-la.

– Conheço o caminho, mas se quer que o ensine, terá de cantar para mim todas as canções que cantava para o seu filho. Gosto de ouvi-las. Sou a Noite.

– Cantarei todas – disse a Mãe. Mas não me detenha, pois preciso alcançar a Morte e recuperar o meu filho.

A Noite permaneceu em silêncio. A Mãe, então, começou a cantar. Eram muitas as canções. Finalmente, a Noite mostrou-lhe o caminho dentro do escuro pinheiral.

Mas, no mais profundo do pinheiral, o caminho bifurcava-se e ela, não sabendo para que lado seguir, perguntou a um arbusto espinhoso, sem folhas nem flores, com os galhos revestidos de gelo:

– Não viu a Morte passar por aqui, levando meu filho?

– Vi – respondeu o arbusto – mas só o direi se me aquecer junto ao seu coração. Estou morrendo de frio.

A mãe apertou o arbusto contra o peito e os espinhos penetraram em sua carne. O arbusto brotou e cobriu-se de folhas verdes e de flores, tal era o calor que brotava daquele coração de Mãe.

Seguindo o caminho indicado por ele, a Mãe chegou a um grande lago. Para atravessá-lo, abaixou-se para beber toda a sua água. Era impossível, mas esperava que, por milagre, pudesse fazê-lo.

– Nunca conseguirá beber-me – disse-lhe o lago. É melhor fazermos um trato. Gosto de colecionar pérolas e seus olhos são as pérolas mais claras e lindas que já vi. Se me der seus olhos, poderei carregá-la até o outro lado, para a grande estufa onde mora a Morte. Lá, flores e árvores representam vidas humanas.

– Tudo farei para chegar até onde está o meu filho, disse a Mãe. Pode ficar com meus olhos.

No mesmo instante seus olhos caíram no fundo do lago e se transformaram em pérolas, e o lago levou-a até a margem oposta. Do outro lado havia uma casa estranha de uma milha de largura. Não se podia dizer ao certo se era uma montanha com matas e cavernas ou se era uma parede de tábuas. Mas a pobre Mãe nada via e perguntou a uma velha que cuidava da grande estufa da Morte:

– Onde acharei a Morte que levou o meu filho?

– Ela ainda não chegou – respondeu a velha. Como conseguiu vir até aqui? Quem a ajudou?

– Deus Nosso Senhor, que é todo misericordioso, me ajudou – disse a Mãe. Onde poderei encontrar meu filho?

– Não o conheço e você também não enxerga. Muitas flores e árvores murcharam esta noite. A Morte não tardará a vir para transplantá-las. Deve saber que cada pessoa tem sua árvore da vida ou sua flor, conforme sua índole. Elas se parecem com as plantas comuns, mas têm um coração que pulsa.

Também o coração das crianças bate! Guie-se pelas batidas, e talvez reconheça o coração de seu filho. O que me dá para eu lhe explicar o que ainda terá de fazer?

– Nada tenho para dar, mas por você irei até o fim do mundo.

– Nada tenho para fazer lá – respondeu a velha – mas pode dar-me seus longos cabelos pretos. Como sabe, são muito belos. Em troca, receberá meus cabelos brancos. Sempre é alguma coisa.

A Mãe fez o que a velha pediu e logo entrou com ela na grande estufa da Morte, onde flores e árvores cresciam em estranha promiscuidade. Cada árvore e cada flor tinha um nome, cada uma delas era uma vida humana espalhada pelo vasto mundo. A Mãe angustiada curvou-se sobre todas as plantas. Ouviu bater dentro delas corações humanos e, dentre milhões, reconheceu o de seu filho.

– Aqui está! – gritou, e estendeu a mão para um pequeno açafrão azul, que pendia triste e murcho.

– Não toque na flor – disse a velha. – Fique aqui e, quando a Morte vier, não a deixe arrancar a flor. Ameace-a de arrancar outras flores e ela ficará com medo, pois é responsável por elas perante Deus: nenhuma pode ser arrancada sem a permissão divina.

De repente, uma gélida rajada de vento atravessou o espaço, e a Mãe sentiu que a Morte acabara de chegar.

– Como encontrou o caminho para vir até aqui? – perguntou a Morte. – Como pôde chegar mais depressa do que eu?

– Sou a Mãe – disse ela.

A Morte estendeu a longa mão para a flor de açafrão e a Mãe cobriu-a com as mãos. Mas a Morte soprou-as com um vento mais gélido que o invernal, e elas tombaram sem forças.

– É inútil... Nada pode fazer contra mim – disse a Morte. – Sou o jardineiro. Tomo suas flores e suas árvores e as transplanto para o grande Jardim do Paraíso, na terra desconhecida. Não ouso, porém, dizer-lhe como crescem ali e o que se passa lá.

– Devolva-me meu filho! – pediu a Mãe.

Chorou e implorou e, de repente, agarrou duas flores, uma em cada mão.

– Vou arrancar todas as suas flores! – gritou para a Morte. – Vou arrancá-las, pois estou desesperada.

– Não as toque! – disse a Morte. – Afirma que é desgraçada, mas quer tornar outra mãe tão desgraçada quanto você...

– Outra Mãe? – gemeu a pobre mulher.

E logo soltou as duas flores.

– Aí tem seus olhos – disse a Morte. Pesquei-os no lago, onde brilhavam com grande intensidade. Eu nem sabia que eram seus. Tome-os de novo. Estão mais claros do que antes. Olhe, depois, no interior daquele poço fundo. Vou dizer-lhe o nome das duas flores que quis arrancar e verá o futuro delas, toda a sua vida humana. Verá o que estava prestes a arruinar.

A mulher olhou o fundo do poço. Era uma ventura ver como uma das vidas se tornava uma bênção para o mundo, ver quanta felicidade e alegria desdobrava-se ao seu redor. E ela viu a outra vida, repleta de penas e atribulações, de terror e de miséria.

– Uma e outra são resultado da vontade de Deus – disse a Morte. – Direi, apenas, que uma das duas flores era a do seu filho. Viu o destino e o futuro do seu filho...

A Mãe soltou um grito de susto.

–  Qual delas era a do meu filho? Diga-me! Liberte o inocente. Livre o meu filho de toda a miséria! Leve-o, será melhor. Leve-o ao reino de Deus! Esqueça minhas lágrimas, minhas súplicas, tudo quanto eu disse ou fiz!

– Não a entendo – retrucou a Morte. – Quer seu filho de volta, ou quer que o leve para o lugar que você não conhece?

A Mãe torceu as mãos, caiu de joelhos.

– Não me ouça! – suplicou a Deus. – Se o que peço é contra a Sua vontade, que é sábia, não me ouça. Não me ouça!

E baixou a cabeça.

Então a Morte afastou-se, levando o seu filho para a terra desconhecida.

 

 

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